segunda-feira, abril 06, 2026

POETISAS ALENTEJANAS - VIRGINIA MARIA DIAS.

 .

RECORDO.

A POETISA DE PEROGUARDA


Nasceu a 16 de Agosto de 1935, no Alentejo.

Filha de camponeses, concluiu apenas o ensino primário.

Abandonou a escola (e o sonho de ser professora) aos onze anos, para trabalhar no campo e ajudar a família a criar os irmãos. Ao trabalho do campo e ao conhecimento da terra, cedo juntou o amor pelas palavras e pelo canto. Nas suas próprias palavras: “foi esse dia camponês que me ensinou a ser poeta”.



Serei?

Eu! O que sou eu?

Olho-me toda! A ver se me descubro.

Serei uma amálgama de tudo

De tudo o que me marcou?

Serei?

Uns pés descalços?

A fome que me erguia,

Num canto de dor, que o céu não ouvia?

Um campo de maduro trigo,

Tombando na revolta de mal repartido?

A lágrima doendo contida,

Quando de palhaço me queriam vestida?

A nuvem que dava tudo

E nada me dava.

Doce ilusão, que o vento levava?

Serei o maltês?

Serei o mendigo?

No desespero, cinza e cansaço que trago comigo?

Na solidão, grito escancarado

Que sobre mim tomba.

Serei o montado

De tanto lhe beber o grito, lhe beber a sombra?

Na saudade, lágrima, lágrima que cresce

E não dou estancada

Serei a terra molhada?

No sonho que me tira, duma vida rasa

Serei do pássaro a asa?

No inconformismo, ao que é imposto

Na ânsia de dar, ao vento o meu rosto

Subir aos cerros, descer aos barrancos

Mesmo ao mais profundo

Serei o vagabundo?

O que sou eu?

Que sou?

Nesta angústia de ser

Já nem sei se existo.

Mas se existo eu sou

Sou sim! Tudo isto!


Poema de Virgínia Maria Dias